domingo, 9 de setembro de 2007

Milão

Milão , 09/09/1979

Minha infância foi algo bem diferente... sem todo o glamour de uma familia de mafiosos...
Tive de me virar desde cedo, segundo meu pai, só assim iria ter o respeito e a confiança de minha familia para assumir o comando quando tivesse idade para tal...
Falar de meu pai é sim falar daqueles caras enormes, barbudos e com humor dos mais insanos possíveis... ele era apenas os músculos, a linha de frente para as cobranças que meu tio tinha de fazer dos coitados que pediam empréstimo ou proteção para a familia...
Pois bem, eu sempre fui o menor da turma, ao contrário de meu pai, eu metia medo apenas em mim mesmo ao tentar forçar meus bíceps e ver o quão fraco eu era...
Mas exatamente por ser o menor, eu tinha de tirar vantagem de minha única vantagem em relação ao resto: meu cérebro... apenas Deus e eu sabíamos o quanto eu tinha talento para manipular, extorquir, mentir e armar... isso que eu ainda nem tinha lido "O príncipe" de Makiavel...

Cresci ganhando dinheiro dos otários, pensando em planos de como ser o maior e melhor de meu bairro, posteriormente, como iria tomar o controle da cidade toda, já que Milão é mais uma província perto de Roma, com todas suas luzes e belos monumentos...
Aos quinze anos, eu já tinha tomado conta do tráfico local, seja ele de entorpecentes como de sexo, esta pronto para assumir meu primeiro "prostíbulo" quando, por chamar atenção demais com meus negócios, tive de ser posto de frente com Fillipo, "padrinho" da familia, o manda-chuva, aquele que um dia eu iria apunhalar pelas costas e tomar seu lugar...

- Pois bem Paolo... não me surpreende em nada tua ascensão... herdas-te de tua mãe a inteligência...de teu pai - pensou demais, poderia não ter dito nada, velho decrépito - herdou a coragem de se impor sem nem ao menos pedir permissão... o que podes me dizer sobre tal audácia? - por um momento, procurei o canivete que tinha ganho aos 14 anos numa aposta com um bêbado... mas tinha esquecido na outra jaqueta... velho de sorte... pra que músculos se poderia lhe "fazer a garganta"? Velho como esta, não teria tempo de reação...
- Achei que um simples "comerciante", de infame proporção em relação a vossa senhoria não chamaria tanta atenção. - político, eu? imagina...
- Claro que, quando eu pretende-se por meu negócio mais "a vista", o senhor seria o primeiro a saber... - provavelmente, saberia junto a bala que lhe atravessaria seu pulmão canceroso, "múmia"... menos mal que ele não poderia ler pensamentos, ao menos era o que eu acreditava...
- Pois bem Paolo, começas-te mal teu comércio filho... antes de cogitar tuas traquinagens, deverias ter se reportado a mim... pensou o que seria de nosso bairro, nossa cidade se cada um agi-se por conta própria?
- Como eu disse meu senhor, iria lhe reportar e apresentar minhas idéias e o "dizimo" proporcional assim que tivesse tudo mais "pronto"... - acho que senti sangue em minhas mãos, minhas unhas invadiam minha carne...
- Pois bem, terás de adiantar o dizimo, dos próximos três meses... - ele ouviu o sangue pingar no chão e meu dentes rangendo... ele podia sentir que eu estava a ponto de saltar em sua direção e dilacerar com minhas próprias mãos sua já estragada pele, repuxada pelos mais de setenta anos de existência...
- És muito jovem para perder sua vida pensando em bobagens como tirar a vida de um velho... ainda mais deste velho meu jovem... saia, prove do que é capaz, pague o que me deve... o lugar para seu "clubinho" já esta reservado e em seu nome, a partir de hoje, se apresente como Giovanni, Paolo Giovanni...

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